quinta-feira, 30 de julho de 2009

VIAGEM AO MUNDO DO "SUAVE MILAGRE"

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Normalmente, associamos como inseparáveis a ironia e a prosa de Eça. Mas as duas coisas podem não andar juntas. Não serão muitos os textos onde isso acontece, mas às vezes ocorre. Então sentimos que há diferenças grandes. É como se Eça tivesse para tratar um assunto que o enchia de um espanto respeitoso. De assombro. A qualidade da prosa é a mesma, mas o mundo em que somos envolvidos é outro. Era assim por exemplo quando Eça falava de Antero. É assim no Suave Milagre[1].
A nossa palestra não significa que este conto seja uma história difícil, hermética. O seu leitor comum, menos prevenido, ficará até com a sensação final de o ter compreendido, de ser capaz de o recontar. Todavia, a esse leitor mais desprevenido, ter-lhe-á escapado uma parte significativa da informação do conto. Digamos mesmo, exagerando com certeza, que lhe escapou lá para 20% do que leu.

Conta o autor que havia um homem muito rico, de nome Obed, cujas vinhas, searas e gados atravessavam um momento difícil. Obed blasfemava ao ver afundar-se a sua opulência. É então que sabe de Jesus de Nazaré, o novo rabi galileu, taumaturgo poderoso. Imagina Obed que, se o mandar chamar, ele, bem pago, esconjurará todas as pragas das suas terras. Envia assim um grupo de servos em busca de Jesus. Partem eles para a Galileia, descem depois ao longo do Jordão até à Judeia, caminham para nascente e, muito tempo depois, regressam descoroçoados: não o tinham encontrado.
Nas proximidades de Cesareia, um homem poderoso, o centurião Públio Sétimo, via a sua única e estimada filha a finar-se. Nenhum esculápio descobria jeito de lhe devolver a saúde. Também ele ouve falar de Jesus e também ele envia uma embaixada à sua procura para que venha e lhe cure a filha. Os soldados dirigem-se à Galileia, descem o Jordão, percorrem a Judeia, caminham em direcção ao mar e sobem por fim para Cesareia sem novas para o seu comandante.
Nem ricos nem poderosos obtinham os serviços do novo profeta, que só intervinha onde o levava a sua vontade.
Havia na Samaria uma mulher muito pobre, mãe de um filho entrevado. Um dia um mendigo fala-lhe do novo rabi galileu. A criança sobressalta-se e pede à mãe que vá à sua procura. Mas como há-de ela ir e deixá-lo? De resto nem ricos nem poderosos o conseguiram trazer a suas casas... Mas o menino suspira:
- Eu queria ver Jesus.
E a porta abre-se e entra Jesus em pessoa.

Em qualquer lugar do mundo é possível situar a diegese de uma história onde entrem um homem rico, um homem poderoso, uma mulher pobre. Mas se nela quisermos meter Jesus, ficamos já muito limitados. Ainda assim, seria possível dispensar grandes referências espaciais ou a dados da história contemporânea. Recorda-se o que se passa com Aia, onde quase não existem topónimos.
Eça, porém, quis mergulhar a diegese da sua história bem fundo num espaço-tempo concreto.

A classificação do conto
Eça visitou a Palestina, como sabemos, pelo que a conhece. Comecemos por ver este mapa que ele então desenhou. Todos os seus topónimos aparecem no conto.
O Suave milagre era certamente, na concepção de Eça, um conto de «ressurreição arqueológica», classificação de que fala em 1893, na crónica intitulada «Positivismo e Idealismo», quando analisava nestes termos a literatura europeia contemporânea:
"Em literatura, estamos assistindo ao descrédito do naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de D’Artagnan".
O que era então tendência europeia era nele já antigo. Eça já regressara à narrativa «de imaginação», fantástica, em 1880, com o satânico Mandarim. Depois viera a fantástica, e também satânica, Relíquia. O Suave Milagre (1891), esse não é nem fantástico nem muito menos satânico. Esta narrativa «de imaginação», de «ressurreição arqueológica», é conto muito pouco realista e de tema cristológico.
Neste sentido, alinha ao lado da Morte de Jesus (1870), do princípio da sua carreira e que vem nas Prosas Bárbaras, e d’A Relíquia.
Houve três versões deste conto, datando a primeira de 1885, com o título de Outro Amável Milagre. A intermédia intitulou-se Um Milagre. Esboço de mapa da Palestina desenhado por Eça de Queirós
É certamente legítimo comparar a última com a primeira e interpretar as diferenças como melhoramentos ou até correcções, mas esse não é o nosso caminho. Nós vamos fixar-nos sobretudo no seu aspecto de «ressurreição arqueológica», aspecto que no conto se verifica a vários níveis.

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[1] O texto que agora se publica foi apresentado em palestra que proferimos na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, da Póvoa de Varzim, em 16/11/2000.

Os espaços

Sem a viagem de Eça ao Oriente, de que – como aprendiz de realista? – redigiu umas notas, nenhum dos seus textos de temática cristológica teria sido certamente possível. Mas os mesmos também não teriam sido possíveis sem a leitura entusiasta da Bíblia, que ele descobriu ainda em Coimbra, ou sem o trabalho dos arqueólogos da primeira parte do século, que deram ar de coisa mais real, mais palpável, ao que era só coisa lida. Acrescentem-se a isto as interpretações positivistas do texto bíblico que negavam o sobrenatural, interpretações que Eça parece ter abraçado com convicção. E é aqui que entra o seu celebrado Renan com a Vida de Jesus.
No seu afã de definir o espaço palestino em que situa a acção, já vimos que semeou o romancista pela sua narrativa grande quantidade de topónimos (cerca de três dezenas), uns familiares ao leitor do texto bíblico, outros hauridos – com certeza indirectamente - na informação histórica de Fávio Josefo (historiador judeu do século I, nascido em 38).

Os topónimos do «Suave Milagre»

Dêmos agora uma olhadela também ao mapa que eu preparei. O mapa, evidentemente, já existia; o que eu fiz foi esbatê-lo para depois poder escrever sobre ele os nomes de cidades e vilas do conto, de modo a podermos identificar as terras mencionadas e seguir as viagens de que lá se fala.

Evitando, parece, reaproveitar espaços como Jericó e Jerusalém — que visitou – mas com lugar de relevo na Relíquia, Eça liga o seu conto sobretudo ao «país de Issacar» (versão de 1891), enclave entre a Galileia e a Samaria, voltado para o leste, para o Jordão e para a Decápole, onde ficava a célebre Bet Shean, que Pompeu rebaptizou para Citópolis, ou à Samaria (versão de 1885). Importante, mas localizado com menos precisão, é o lugar do forte do centurião Públio Sétimo (que parece aparentável com o centurião Cornélio, de Cesareia, de que se fala nos Actos).
Segundo a versão de 1885, Obed vive na Samaria, na importante e antiquíssima Siquém (Sichem no conto e no mapa de Eça). É nas proximidades de Siquém que ficam os montes, vizinhos entre si, Garizim e Ebal e o evangélico Poço de Jacob[1].
De acordo com a versão de 1891, vive o mesmo Obed em Enganim, que é cidade bíblica, mas, ao contrário do que o conto dá a entender, nunca foi grande. Grande e célebre, no «país de Issacar», foi a já referida Bet Shean. Dela levou, por exemplo, Nabucodonosor os Israelitas cativos para a Babilónia, e é hoje, com o seu extenso campo de ruínas – foram desenterrados pelos arqueólogos estratos de dezoito cidades -, o seu teatro romano restaurado e o seu anfiteatro, um importante destino turístico.
Não é impossível que onde Eça diz Enganim quisesse significar mesmo Bet Shean... Não tenho conhecimento de que haja ruínas de Enganim...
Teatro restaurado de Bet Shean
Do aquartelamento de Públio Sétimo, vê-se que não ficaria longe do monte Carmelo, nem da mítica Meguido, a apocalíptica Armagedão, ou antes Har­ Meguido, monte Meguido, situada junto à estrada que vai do Egipto para a Síria e Babilónia e que era lugar fatal do encontro entre os exércitos destes países que tantas vezes ao longo da história se digladiaram.

Os Essénios

A presença do grupo sócio-religioso dos Essénios na narrativa, mesmo que só de passagem, integra-se com certeza na mesma orientação arqueológica que desde o princípio assinalámos. Olhemos agora para os textos que nos falam deles.

Os servos seguiram, correndo, sem repouso, até ao sítio onde o Jordão, mais baixo, tem um largo remanso e dorme um instante, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Da entrada de uma cabana, feita de rama, um Essénio, coberto de peles de cabra, soturno e selvagem, gritou-lhes que Jesus, sozinho, se afastara para além. Mas aonde era além?
O Essénio, com um gesto brusco, indicou vagamente as montanhas da Judeia, Engaddi, e as fronteiras roxas do reino de Asketh onde se ergue, sinistra sobre o seu rochedo, a cidadela de Makaur.

Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio até adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo rabi da Galileia que, como os Essénios, ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados. O Essénio murmurou que o rubi atravessara o oásis de Engaddi, depois se adiantara para além... – Mas onde, além? – Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de além-Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur...
O mapa de Eça deu-nos uma certeza, Makaur é a actual Mukawir jordana, a Maqueronte de Herodes Antipas, onde João Baptista foi decapitado, e que na Relíquia se chama Macheros, isto é, Makeros. Pela Relíquia, onde é tão activo na defesa de Jesus o essénio Gad, sabemos que Eça coloca a «pátria» dos Essénios no oásis de Engaddi, actual En­-Geddi. Sabemos, ainda pela Relíquia, que a proximidade entre João Baptista e os Essénios – no entender de Eça – era grande. No texto da segunda versão do conto, o essénio com o seu cordeirinho parece mesmo o Precursor[2].
A referência aos «tanques purificados» é interessante. Trata-se certamente dos mikvehs das abluções judaicas – e essénias em particular. Foi delas que nasceu, entre os Essénios, a ideia do baptismo, palavra que na origem significava mergulho, imersão.
Na segunda versão, esta personagem torna-se simpática, sendo que na primeira era de uma antipatia primária, brutal. Mas não se esqueça que há frases no Evangelho donde emerge de S. João uma imagem de grande rudeza.
Vaso essénio. Em 1947 e anos seguintes fizeram-se grandes descobertas de manuscritos essénios. Alguns encontravam-se neste jarro.


[1] Siquém é hoje Nablus, de Nea+Pólis, Cidade Nova, como lhe chamou Vespasiano quando a reconstruiu em finais do século I, e é terra palestiniana, portanto menos explorada turisticamente e sem site de préstimo na Internet. Garizim também ocorre no Evangelho.[2] Para o mosteiro dos Essénios podia-se entrar; em termos práticos, quase se não podia sair, devido aos compromissos aí assumidos em termos de alimentação, por exemplo. O egresso morreria à fome. Por isso, S. João Baptista, que terá passado parte da infância entre eles (senão, como poderia sobreviver em menino no deserto?), nunca terá sido verdadeiro monge essénio.

A atracção da cultura clássica

O mundo clássico é para Eça outra saída para a fantasia. Lembre-se A Perfeição. Desde há muito, ainda mais desde Herodes o Grande, que este mundo marcava forte presença e atracção na Palestina. O conto conserva disso vestígios. Vejam-se estes dois textos simétricos e tão violentamente distantes, no segundo dos quais transparece uma autêntica veneração pelo mundo grego pagão:

Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judeia Romana, cruzaram um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. Encontrara ele, por acaso, esse profeta novo da Galileia que, como um deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:
- Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no seu Templo. De Galileia surdem os néscios e os impostores...
E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados – o furioso doutor saltou da mula e, com as pedras da estrada, apedrejou os Sorvos de Obed, uivando: «Racca! Racca!» e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim.
Samaria foi reconstruída magnificamente por Herodes o Grande, que a rebaptizou para Sebaste (palavra grega correspondente a augusto), em honra do imperador. Estas ruínas conservam memória da reconstrução herodiana.

Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico de um templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de falhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:
- Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arre­batar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca tolha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!
Herodes foi um grande construtor e entusiasta da cultura romana. O Túmulo dos Patriarcas em Hebron aqui representado é a sua obra mais bem conservada.

Hoje sabemos bem que este encanto pela antiguidade, ao modo renascentista, é ingénuo. Lá como cá, sempre houve bons e maus, gente sensata e gente insensata. Em Atenas, os cidadãos não eram todos Sócrates, Platão, Ésquilo ou Sófocles, Demóstenes, etc. Em Roma, os imperadores não foram todos como Augusto ou os poetas como Virgílio. Na antiguidade, houve os Aristófanes e os Catulos e os Petrónios e os Neros. Os escravos contavam-se por milhares... E a arquitectura de Roma não parou com Vitrúbio. Evoluiu largamente. O resto são idealizações, e por isso fez tanto sentido a reacção quinhentista do Maneirismo.
Teatro de Gerasa na Decápole, hoje Jordânia.

Além disso, o adorador do Deus único, por muito desajeitado que fosse a tratar com o seu semelhante, estava bem mais próximo do melhor que produziram os grandes pensadores gregos que o sacerdote de Apolo.

Da primeira versão à terceira - correcções

Não há-de ser fácil fazer reviver perante o leitor um mundo tão distante. Veja-se como Eça fez uma correcção no seu texto:

Nas vizinhanças de Hébron arrastaram para fora das grutas os solitários, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar onde se escondia Jesus de Galileia; e a ignorância de dois mercadores, que vinham de Jope com uma carregação de malóbatro, e que não tinham jamais ouvido o nome do rabi de Galileia, foi-lhes contada como um delito e pagaram vinte dracmas ao decurião.
Nas cercanias de Hébron arrastaram os solitários pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocu­ltava o rabi – e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de malóbatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dracmas a cada decurião.
Eça lembra algures na Relíquia que a dracma valia, como o denário romano, o salário de um dia de trabalho. Vê-se que, da primeira versão para a seguinte, a «multa» aumentou: de vinte dracmas pagas a um decurião passou a cem pagas a cada um dos três decuriões. É obra!
Na primeira versão seria um ordenado mínimo (vinte dias de trabalho), na segunda lá para 600 contos. Tamanha extorsão!
Os solitários, sendo En-Geddi a terra dos Essénios, seriam também membros da seita.Fragmento dum manuscrito de Qumran

A propósito de malóbatro, lembre-se que Eça às vezes sentia a atracção do vocábulo exótico, muitas vezes geográfico, como também acontece neste conto.

O comum leitor de hoje leria as palavras Siquém e Corozaim, segundo a grafia que vem no conto, como Síxem, Xorazim. Não estará muito certo que se continue a adoptar uma grafia que evidentemente engana.
Já agora, a Decápola do conto é a Decápole, de deca+pólis, dez cidades, como metrópole, de méter+pólis, cidade-mãe. Também se fala aí dos Partas. Trata-se dos habitantes da Pártia, como Eça bem sabia, mas nós chamamo-lhes Partos, ao modo aliás do que acontecia com os Romanos[1].


[1] Os Partos foram batidos por Tibério, às ordens de Augusto, em 20 a. C. Públio dificilmente poderá ter participado nas batalhas, senão teria pelo menos 70 anos... e não teria uma filha adolescente...

Prosa poética

Se pelo tempo e pelo espaço, este conto se afastava dos princípios realistas-naturalistas, tal também acontece ao nível da organização da narrativa, feita de tão evidentes paralelismos e antíteses.
Forum de Gerasa. Gerasa é conhecida como a Pompeia do Oriente pela grandiosidade das suas ruínas do período romano.

O conto poderia dividir-se em duas partes. A primeira começaria com a chegada do mensageiro que faz nascer as esperanças em Obed e podemos supor que também em Públio, e a segunda começaria com a chegada do pobre que faz saber à mãe do menino entrevado da existência de Jesus e dos seus milagres. Dois mensageiros, portanto. Depois, encontramos três situações paralelas: a tomada de conhecimento, o surgir da esperança e a mobilização, isto é, o envio de uma embaixada que traga Jesus de Nazaré.
Tais embaixadas têm idêntico objectivo, dirigem-se ambas à Galileia e correm depois desencontradas paragens terminando ambas em fracasso. O paralelismo continua claro. A conclusão é em antítese: a mãe pobre não tem servos para enviar, mas recebe a visita do rabi da Galileia.
Mas reparemos agora em dois textos paralelos do regresso dos servos de Obed e dos soldados de Públio:

Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam - e todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.
Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa fardo de derrota os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Sétimo, porque sua filha morria sem um queixume olhando o mar de Tiro e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.

Ruínas de Tiro no actual Líbano.
Ernesto Guerra da Cal tem no seu livro Linguagem e Estilo de Eça de Queirós um subcapítulo intitulado «A repetição como agente lírico». Mas vê a repetição apenas ao nível do vocábulo e da frase, segundo o seu objectivo estilístico. Parece-nos porém que também a repetição ao nível da estrutura da narrativa pode dar o seu contributo lírico. Paralelismo diz repetição. De ideias, de situações, de espaços, etc. Ora a vida e o tempo que inexoravelmente lhe mede a duração têm só um sentido. Na vida não há paragens nem repetições: ninguém se lava na mesma água do rio. A prosa mais comum, que dá a sucessão contínua da vida, sem paralelismos nem repetições, parece assim mais próxima do seu fluir irreversível. A poesia é que é feita de paralelismos e repetições: uma estrofe de um poema é sempre bastante paralela a outra. Porque é feita de versos que suspendem arbitrariamente o fluxo do pensamento, porque estes são unidades rítmicas que se juntam a formar um todo maior, etc. O verso é o contrário da prosa. O verso é o artifício, a prosa a naturalidade.
Reconstituição de Cesareia Marítima. Herodes construiu de raiz esta cidade romana ali à entrada do seu reino.

Se a gente se sente sob o efeito do artifício, duvida se ainda estará a ler prosa. Bem sabemos que são muitos os casos em que a prosa se torna poética. Aqui, é assim que a sentimos.

Um sentido para o conto

São muitas as pessoas que o autor põe a falar de Jesus de Nazaré: o mensageiro que chega a Siquém/Enganim, Obed e os servos que envia à sua procura, o essénio, os soldados de Públio, o mendigo que fala dele à mãe pobre e ao seu filho...
De todos, quem desenha de Jesus um retrato mais evangélico é o mensageiro que vinha da Galileia. Para ele, Jesus é: «Um rabi formoso, (que) percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos.» Quando lhe perguntam se não será ele o Messias, não dá qualquer resposta, e vai-se embora.
O orgulhoso e interesseiro Obed, que «ruminava queixumes contra Deus cruel», que imagina Jesus à medida dos seus interesses, que o compara a um feiticeiro e sonha suborná-­lo, é quem dele deixa uma ideia mais mesquinha.
Por muito simpático que seja o final da história, reconheçamos contudo que este Jesus tão esquivo, que faz jogo de esconde-esconde com os servos de Qbed e com os soldados de Públio, não é o Jesus do Evangelho. Esse ia até onde estavam as pessoas, não se lhes furtava. As pessoas vinham até ele aos milhares, de perto e de longe, e ele a todos falava. Repare-se também que este «milagre» não tem qualquer fundamento em texto evangélico, é pura criação «apócrifa» de Eça. Milagre que se limita à aparição de Jesus naquela pobre casa, sem ser chamado...
De resto a lógica dos milagres no conto parece bem distante da que o Evangelho lhes atribui. Pois sempre houve doentes e pobres. Faz parte da nossa condição histórica, humana.
Mas o sentido do conto não é com certeza estabelecer um retrato de Jesus.
Em Agosto de 2000, publicou José Saramago no Público uma carta dirigida a Eça de Queirós em que lhe falava do Suave Milagre. Basicamente, queria ele dizer que o conto era uma construção literária que vivia do drama que foi para Eça a falta dos pais na sua infância. A mãe no conto corresponderia à ama que cuidou dele nos primeiros anos e o Jesus Cristo corresponderia aos pais.
Apresentada assim tão sinteticamente, esta interpretação, legítima, não convencerá muito. Mas ao menos alerta-nos para a procura de afloramentos do estigma de ilegitimidade que profundamente marcou o escritor. Estigma que está, ou parece estar, com clareza na Aia e na história do Carlinhos dos Maias, que a mãe abandona e cujo pai fraqueja e não cuida da sua criação.
A encaminharmo-nos por uma interpretação deste tipo, contudo, eu preferiria ver no menino «o pobre homem da Póvoa de Varzim» que, frente às agruras da vida, pede ajuda ao seu padrinho, «o Senhor dos Aflitos».
Ruínas de Cesareia Marítima, dominadas pelo seu teatro reconstruído.

Eça de Queirós manteve ao longo da sua vida uma atitude de crítica face à Igreja, atitude, bem o sabemos, bastante comum entre as camadas intelectuais do seu tempo. Um discípulo de Renan como ele foi era um apaixonado de Jesus – não propriamente de Jesus Cristo, mas do homem Jesus de Nazaré.
O que marca este conto, em relação sobretudo à Relíquia, é a ausência de anticlericalismo agressivo; talvez daí em parte a sua «suavidade» e correspondente popularidade. O milagre de que fala o título também parece muito suave - praticamente nem existe. Portanto, também não compromete o autor, que não precisa de o interpretar.
Globalmente, a história parece é confirmar a bem-aventurança que proclama «Felizes os pobres!» Jesus está muito mais depressa com os pobres, por iniciativa sua, que com os ricos, apesar das suas iniciativas. Este é um dos aspectos da crítica do autor à Igreja, que vem por exemplo na Relíquia. Jesus de Eça seria um Jesus sem templos majestosos, sem ouros, próximo dos pobres e das suas necessidades. O que era certamente muito evangélico — e, podia-se acrescentar, franciscano, já que Eça nutria grande simpatia pelo franciscanismo.
Por sinal há obras de Eça – Eça que gostava de viver com largueza – onde a abundância de dinheiro é proverbial, como o Mandarim; o Jacinto da Cidade e as Serras é riquíssimo, riquíssimo é o Carlos d'Os Maias...
O Raposo da Relíquia fareja-o, derrete-se, anula-se por ele...


Procedência das ilustrações
1 – Eça de Queirós, Folhas Soltas, Lello e Irmão editores, Porto, 1966
2 – Vários, Jesus no seu Tempo, Selecções do Reader,s Digest, Lisboa, 1988
3 – Site israelita
4 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
5 – Site americano da Biblioteca do Congresso
6 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
7 – Giovanna Magi, Israel, Casa Editrice Bonechi, Florença
8 – Jordanien. Wo Abenteuer Sie erwarten. Brochura do Jordan Tourism Board
9 – Site americano da Biblioteca do Congresso
10 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
11 – Vários, Património da Humanidade, Europa Oriental e Médio Oriente, tomo VII, UNESCO
12 – Vários, Jesus no seu Tempo, Selecções do Reader,s Digest, Lisboa, 1988
13 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel