quinta-feira, 30 de julho de 2009

Prosa poética

Se pelo tempo e pelo espaço, este conto se afastava dos princípios realistas-naturalistas, tal também acontece ao nível da organização da narrativa, feita de tão evidentes paralelismos e antíteses.
Forum de Gerasa. Gerasa é conhecida como a Pompeia do Oriente pela grandiosidade das suas ruínas do período romano.

O conto poderia dividir-se em duas partes. A primeira começaria com a chegada do mensageiro que faz nascer as esperanças em Obed e podemos supor que também em Públio, e a segunda começaria com a chegada do pobre que faz saber à mãe do menino entrevado da existência de Jesus e dos seus milagres. Dois mensageiros, portanto. Depois, encontramos três situações paralelas: a tomada de conhecimento, o surgir da esperança e a mobilização, isto é, o envio de uma embaixada que traga Jesus de Nazaré.
Tais embaixadas têm idêntico objectivo, dirigem-se ambas à Galileia e correm depois desencontradas paragens terminando ambas em fracasso. O paralelismo continua claro. A conclusão é em antítese: a mãe pobre não tem servos para enviar, mas recebe a visita do rabi da Galileia.
Mas reparemos agora em dois textos paralelos do regresso dos servos de Obed e dos soldados de Públio:

Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam - e todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.
Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa fardo de derrota os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Sétimo, porque sua filha morria sem um queixume olhando o mar de Tiro e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.

Ruínas de Tiro no actual Líbano.
Ernesto Guerra da Cal tem no seu livro Linguagem e Estilo de Eça de Queirós um subcapítulo intitulado «A repetição como agente lírico». Mas vê a repetição apenas ao nível do vocábulo e da frase, segundo o seu objectivo estilístico. Parece-nos porém que também a repetição ao nível da estrutura da narrativa pode dar o seu contributo lírico. Paralelismo diz repetição. De ideias, de situações, de espaços, etc. Ora a vida e o tempo que inexoravelmente lhe mede a duração têm só um sentido. Na vida não há paragens nem repetições: ninguém se lava na mesma água do rio. A prosa mais comum, que dá a sucessão contínua da vida, sem paralelismos nem repetições, parece assim mais próxima do seu fluir irreversível. A poesia é que é feita de paralelismos e repetições: uma estrofe de um poema é sempre bastante paralela a outra. Porque é feita de versos que suspendem arbitrariamente o fluxo do pensamento, porque estes são unidades rítmicas que se juntam a formar um todo maior, etc. O verso é o contrário da prosa. O verso é o artifício, a prosa a naturalidade.
Reconstituição de Cesareia Marítima. Herodes construiu de raiz esta cidade romana ali à entrada do seu reino.

Se a gente se sente sob o efeito do artifício, duvida se ainda estará a ler prosa. Bem sabemos que são muitos os casos em que a prosa se torna poética. Aqui, é assim que a sentimos.

Um sentido para o conto

São muitas as pessoas que o autor põe a falar de Jesus de Nazaré: o mensageiro que chega a Siquém/Enganim, Obed e os servos que envia à sua procura, o essénio, os soldados de Públio, o mendigo que fala dele à mãe pobre e ao seu filho...
De todos, quem desenha de Jesus um retrato mais evangélico é o mensageiro que vinha da Galileia. Para ele, Jesus é: «Um rabi formoso, (que) percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos.» Quando lhe perguntam se não será ele o Messias, não dá qualquer resposta, e vai-se embora.
O orgulhoso e interesseiro Obed, que «ruminava queixumes contra Deus cruel», que imagina Jesus à medida dos seus interesses, que o compara a um feiticeiro e sonha suborná-­lo, é quem dele deixa uma ideia mais mesquinha.
Por muito simpático que seja o final da história, reconheçamos contudo que este Jesus tão esquivo, que faz jogo de esconde-esconde com os servos de Qbed e com os soldados de Públio, não é o Jesus do Evangelho. Esse ia até onde estavam as pessoas, não se lhes furtava. As pessoas vinham até ele aos milhares, de perto e de longe, e ele a todos falava. Repare-se também que este «milagre» não tem qualquer fundamento em texto evangélico, é pura criação «apócrifa» de Eça. Milagre que se limita à aparição de Jesus naquela pobre casa, sem ser chamado...
De resto a lógica dos milagres no conto parece bem distante da que o Evangelho lhes atribui. Pois sempre houve doentes e pobres. Faz parte da nossa condição histórica, humana.
Mas o sentido do conto não é com certeza estabelecer um retrato de Jesus.
Em Agosto de 2000, publicou José Saramago no Público uma carta dirigida a Eça de Queirós em que lhe falava do Suave Milagre. Basicamente, queria ele dizer que o conto era uma construção literária que vivia do drama que foi para Eça a falta dos pais na sua infância. A mãe no conto corresponderia à ama que cuidou dele nos primeiros anos e o Jesus Cristo corresponderia aos pais.
Apresentada assim tão sinteticamente, esta interpretação, legítima, não convencerá muito. Mas ao menos alerta-nos para a procura de afloramentos do estigma de ilegitimidade que profundamente marcou o escritor. Estigma que está, ou parece estar, com clareza na Aia e na história do Carlinhos dos Maias, que a mãe abandona e cujo pai fraqueja e não cuida da sua criação.
A encaminharmo-nos por uma interpretação deste tipo, contudo, eu preferiria ver no menino «o pobre homem da Póvoa de Varzim» que, frente às agruras da vida, pede ajuda ao seu padrinho, «o Senhor dos Aflitos».
Ruínas de Cesareia Marítima, dominadas pelo seu teatro reconstruído.

Eça de Queirós manteve ao longo da sua vida uma atitude de crítica face à Igreja, atitude, bem o sabemos, bastante comum entre as camadas intelectuais do seu tempo. Um discípulo de Renan como ele foi era um apaixonado de Jesus – não propriamente de Jesus Cristo, mas do homem Jesus de Nazaré.
O que marca este conto, em relação sobretudo à Relíquia, é a ausência de anticlericalismo agressivo; talvez daí em parte a sua «suavidade» e correspondente popularidade. O milagre de que fala o título também parece muito suave - praticamente nem existe. Portanto, também não compromete o autor, que não precisa de o interpretar.
Globalmente, a história parece é confirmar a bem-aventurança que proclama «Felizes os pobres!» Jesus está muito mais depressa com os pobres, por iniciativa sua, que com os ricos, apesar das suas iniciativas. Este é um dos aspectos da crítica do autor à Igreja, que vem por exemplo na Relíquia. Jesus de Eça seria um Jesus sem templos majestosos, sem ouros, próximo dos pobres e das suas necessidades. O que era certamente muito evangélico — e, podia-se acrescentar, franciscano, já que Eça nutria grande simpatia pelo franciscanismo.
Por sinal há obras de Eça – Eça que gostava de viver com largueza – onde a abundância de dinheiro é proverbial, como o Mandarim; o Jacinto da Cidade e as Serras é riquíssimo, riquíssimo é o Carlos d'Os Maias...
O Raposo da Relíquia fareja-o, derrete-se, anula-se por ele...


Procedência das ilustrações
1 – Eça de Queirós, Folhas Soltas, Lello e Irmão editores, Porto, 1966
2 – Vários, Jesus no seu Tempo, Selecções do Reader,s Digest, Lisboa, 1988
3 – Site israelita
4 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
5 – Site americano da Biblioteca do Congresso
6 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
7 – Giovanna Magi, Israel, Casa Editrice Bonechi, Florença
8 – Jordanien. Wo Abenteuer Sie erwarten. Brochura do Jordan Tourism Board
9 – Site americano da Biblioteca do Congresso
10 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel
11 – Vários, Património da Humanidade, Europa Oriental e Médio Oriente, tomo VII, UNESCO
12 – Vários, Jesus no seu Tempo, Selecções do Reader,s Digest, Lisboa, 1988
13 – Randall D. Smith, O País da Bíblia. Viagem à Terra Santa, Doko, Israel

Sem comentários:

Enviar um comentário